ponto de partida 

Ao ter sido convidado, pela diocese Leiria/Fátima, para integrar as comemorações do «Ano Agostiniano», o TAP, sentiu uma vez mais reconhecido o seu trabalho, enquanto dinamizador cultural.
Desenvolver todo o género de trabalhos de âmbito cultural, fomentando a vida artística e cultural, e cooperar com outros organismos, estatais e/ou particulares, são dois dos grandes objectivos, consagrados nos seus estatutos, e que o TAP tem posto em prática ao longo dos anos fazendo-o mais uma vez ao aderir a esta iniciativa.


Por outro lado, este desafio levantava também várias questões, entre as quais a concepção do texto e a encenação do espectáculo.
A proposta vinda da diocese, trabalhar a partir da obra «As confissões», levou o grupo a decidir contratar um dramaturgo.

 No que respeita à encenação, apesar de todos os trabalhos efectuados até então o grupo ter sido auto-suficiente, quis com este projecto ir um pouco mais além e convidar um encenador profissional.
Trabalhar com um encenador profissional, já estava nos objectivos do grupo, de forma a permitir um crescimento dos elementos que o integram, enquanto actores, mas os custos elevados que teria que suportar teriam até ao momento inibido o TAP de avançar com esse propósito. Com o projecto Santo Agostinho, o grupo achou que era o momento oportuno para convidar um encenador profissional, para isso candidatou o projecto ao financiamento do Ministério da Cultura, o qual foi aprovado


Além do espectáculo , o TAP dinamizou encontros, em parceria com uma Livraria de Pombal, K Livro. Estes encontros passaram por desenvolver um ciclo de debates, reflexões, exposições, sobre Santo Agostinho e consequentemente sobre «As Confissões» (visão literária / itinerário espiritual), interligando com outras abordagens/visões (manifestações artísticas).

 

 

Concepção do espectáculo


O ponto de partida foi um conjunto de perguntas que o autor fez para si próprio:
1.) Quem, nesta sociedade cada vez mais laica, que se preocupa, hoje, com a vida de um santo?
2.) Quem se preocupa hoje com a vida de um santo que viveu à 1600 anos, que viveu à dezasseis séculos?
3.) Quem se interessaria em ver um espectáculo que é a adaptação teatral que “As confissões”?
4.) Quem já ouviu falar de “As confissões”?
5) Quem leu “As confissões”?
6.) Quem se interessaria por um santo que não é popular, que a maioria dos católicos respeita mas não sabe quem foi, a não ser os religiosos mais intelectualizados?
7.) Quem, a não ser alguém muito católico, se interessaria em sair de casa para assistir a uma peça sobre a vida de um santo nada carismático em termos populares, apesar de ter sido uma pessoa de forte carisma?
8.) Quem se interessaria mais: os ligados ao catolicismo ou os amantes da filosofia?
A seguir surgiram algumas respostas: Agostinho é uma personagem teatralmente interessante, já que é obsessivo e polémico. É uma personagem heróica. Agostinho é, definitivamente, um herói da igreja católica: com o seu brilhantismo e a sua energia arrebatadora derrotou as forças consideradas heréticas e foi um dos responsáveis pela estruturação do catolicismo, não apenas como religião, mas também como instituição.
   
Agostinho abriu caminho para o crescente poder político da igreja católica.

Suas posições polémicas podem ampliar o interesse e a comunicabilidade de uma peça: o pecado original, a condenação eterna dos inocentes (crianças mortas sem baptismo), a predestinação, o livre-arbítrio, a defesa da tese de que Deus tem seus eleitos e o sexo como sinonimo de pecado – são temas actuais, que permanecem no dia-a-dia do homem contemporâneo.

Seria melhor, então, não apenas adaptar “As confissões”, mas abrir mais o enfoque, mostrando a trajectória de sua vida – sua juventude pagã; sua relação com Floria; seu filho bastardo Adeodato; o envolvimento com sua mãe; seu prestígio político. Tudo isso pode ajudar a uma plateia de hoje a criar um contacto real com o que se passa no palco, à medida em que, falando de Agostinho e do século I,  teremos a possibilidade de levantar questões concretas sobre a sociedade do século XXI.

Numa dramaturgia, o herói  não deve ser diminuído com a apresentação apenas de suas qualidades e de suas vitórias. Isso empobrece o herói. Rico é o herói que tem contradições, complexidades.

E isso Agostinho tem.

A obra de arte, por sua vez, também não deve ser assim tão esquemática. Isso empobrece a obra. Rica é a obra que estabelece uma dialéctica: avanços e recuos, branco, preto e também o cinza. É pobre falar apenas das qualidades do herói, no estilo realismo-socialista. Os defeitos de Agostinho, junto com suas qualidades, tornam o personagem muitíssimo mais humano. E mais rico.

Clóvis Levi

 Ficha Técnica


Dramaturgia e Encenação de Clóvis Levi
Cenografia de José Silva
Desenho de Luz de João Alegrete
Figurinos de Elsa Silva
Fotografia de Gustavo Medeiros    
Elenco - Ana Cabral, Catarina Ribeiro, Filipe Eusébio, Filipe Santos, Humberto Pinto, Inês Falcão, Joana Cabral, João Alegrete, Licínia Simão, Luís Catarro, Nuno Gabriel Oliveira, Sónia Gonçalves, Tiago Poiares, Vânia Neves.