concepção do espectáculo
Miguel Sopas
Em Maio de 2005, o Teatro Amador de Pombal propôs-se desenvolver a montagem de mais um espectáculo, com estreia prevista para o mês de Julho – por ocasião da comemoração do 29.º aniversário do grupo. Foi-nos proposta a encenação do mesmo, nas seguintes condições: empregar um grupo de quatro actores; desenvolver, com o grupo, uma sessão de trabalho por semana, num total de 15 sessões; conceber um espectáculo de rua, ou de apresentação em espaço não convencional, o mais adaptável possível.
O número de actores disponível e a recente revisitação pessoal ao texto À espera de Godot, de Samuel Beckett, levou-nos a propor esse texto como universo dramatúrgico de partida para a concepção do espectáculo. Um contacto também recente e pessoal com a Técnica da Máscara levou-nos a considerar possível ser essa a “linguagem” base para a montagem teatral, tentando aliar uma ideia de formação (ainda que a um nível básico, ou mesmo superficial) com uma outra de exploração do que parecia ser a eficácia e pertinência da Técnica como ferramenta para a criação de “material cénico” propriamente dito.
Assim, foi proposta ao grupo envolvido uma primeira fase de trabalho, em que a tónica seria a formação. Através de algumas breves explicações e da realização de sequências de exercício simples, foram postas à consideração as regras básicas da Técnica da Máscara, as suas relações com a ideia de eficácia cénica, e a sua pertinência enquanto constituintes de um código/vocabulário de trabalho que, se pretendia, pudesse ser tornado comum e operante. Trabalhámos também nesta fase, e através deste meio, a ideia de consolidação de um colectivo de trabalho, e a da importância da improvisação como forma de fazer surgir propostas cénicas válidas e interessantes.
Esta ideia de improvisação foi, então, a tónica da segunda fase de trabalho deste processo. Foi pedido aos actores que, tendo por base os conceitos globais que encontrámos subjacentes à Técnica da Máscara, apresentassem semanalmente – sob a forma de sequências de improvisação preparadas – materiais que pudéssemos burilar em conjunto e, em seguida, “montar” numa estrutura complexa colectiva. As propostas deveriam ter por base o universo dramatúrgico escolhido, mas não cingir-se estritamente à ilustração cénica do texto – deveriam antes reflectir uma tomada de opção face ao mesmo, colocando em cena os universos e as referências pessoais quando considerados na relação com À espera de Godot. Assim, todas as semanas, deveríamos tomar uma parte das sessões de trabalho como uma apresentação pública de um objecto teatral “provisório” que, ainda que mantivesse essa característica, pudesse ser fruído pelo público que fosse junto de nós como um “espectáculo” e que, apesar da sua previsível curta duração, pudesse merecer essa designação... Não foi possível, ao longo do processo, tornar públicos todos os ensaios; ainda assim, o contacto com espectadores aconteceu por diversas vezes, e o objectivo principal desta iniciativa foi cumprido: a estrutura final que fixámos e constitui a montagem final é, à data da sua anunciada estreia, um espectáculo de teatro já “estreado”...

No decorrer do processo, foram sucessivamente introduzidos parâmetros e contingências de “direcção” mais limitadores, de maneira a ir “enformando” as improvisações propostas pelos actores: não sendo nosso objectivo “encenar” À espera de Godot, quisemos discretamente caminhar para uma estrutura que, dramaturgicamente, pudesse evidenciar algumas correspondências com o percurso (ou talvez o “não percurso”...) desenvolvido na peça de Beckett. Quisemos também, sucessivamente, ir apagando os “traços mais grossos” que a Técnica da Máscara pudesse estar a induzir nos desenhos de cena, aproximando os actores de um “estar” mais naturalista; ainda assim, julgamos não ter perdido a formalização das relações de corpo e de espaço, e ter conseguido manter as tensões cénicas a todo o tempo evidenciadas – e esse era outro objectivo primordial.
A fragilidade do material cénico que fomos construindo foi desenvolvendo em nós a consciência de estarmos a falhar num dos objectivos explícitos da proposta inicial: o espectáculo que, em grupo, estávamos a “fabricar”, não era um espectáculo de rua – bem pelo contrário, era um encontro íntimo com um público reduzido, operacional num espaço pequeno e em proximidade com o espectador (de resto, nas condições efectivas em que trabalhámos a maior parte do tempo...). O grupo decidiu, então, prescindir da ideia de espectáculo de rua, e assumir este projecto como uma apresentação simples, íntima, de curta duração e adequada a espaços fechados e de pequena dimensão. A ambiguidade do próprio espectáculo contribui para esta (re)transfiguração constante durante o processo de criação de “Enquanto se está à espera…”
Ambiguidade é, de resto, um bom conceito de síntese para encerrarmos esta pequena nota. Um trabalho desta natureza, desenvolvido em projecto e constituído por contributos diversos, só poderia resultar num objecto não linear e muito aberto – o que se verifica. Ao público, desejamos que participe, realizando também a sua “montagem” a partir da nossa proposta, e inquietando-se.
Afinal... à espera de quê...?
fotografias
ficha técnica
Encenação de Miguel Sopas
Elenco Igor Gonçalves, Licínia Simão e Luis Leitão
Luz de Tiago Poiares