“Entre a maravilha e o horror” 

Clovis Levi - Encenador


O impacto - a crueldade infantil.
O pano de fundo – as ditaduras.
O que acontece - crianças brincam enquanto os pais fazem a sesta.
A pergunta - que brincadeiras são estas?

A peça “Jogos na hora da Sesta”, da argentina Roma Mahieu, recebeu inúmeros prémios internacionais – e continua recebendo-os – desde 1976 , data em que foi escrita.

Proibida imediatamente na Argentina, quando da ditadura militar, a peça tem feito uma vitoriosa carreira internacional, com encenações premiadas em inúmeros países.

Qual a razão de tamanho sucesso ao longo de quase quarenta anos? A resposta é dura, mas inevitável: o fracasso da humanidade.

Quanto mais nos brutalizarmos, mais o texto de Roma Mahieu torna-se actual e necessário.

E nos brutalizamos mais e mais. A cada dia.

A escolha desta peça pelo TAP revela, mais uma vez, a vocação interventiva do grupo .Vivemos uma nova era de violência, com o crescente poder dos movimentos terroristas, com invasões militares de países inimigos, com ditaduras que não caem , com o trabalho escravo em diversas partes do mundo.

Mas não se assuste quem assiste a isso todos os dias pela televisão e não acha piada alguma em ver também no palco.

A peça mostra apenas brincadeiras infantis.

Entretanto, é através dos comportamentos das crianças nestes jogos que se percebe tudo. Os miúdos, enquanto estão ainda formando suas personalidades, já reflectem a sociedade em que vivem, sociedade percebida não através da análise profunda, mas pela observação e imitação dos pais, da vizinha, do que acontece nas ruas e nas escolas, do que assistem na televisão.

Através dos jogos, as crianças reproduzem os rituais sociais dos adultos – o fascínio pela televisão, a sexualidade, o casamento, a morte, o velório, o enterro , as guerras, a religiosidade, os tribunais –  num conjunto de acções repletas de violência e de poesia, a “meio caminho entre a maravilha e o horror” , como afirmou Arrabal, outro autor que também disseca sem medo a crueldade infantil.

Há poesia e sadismo, integração colectiva e exclusão social, inocência e erotismo, ódio e ingenuidade.

E humor. Negro, mas humor.

Parente próxima de Arrabal (“Cemitério de Automóveis”/”Fando e Lys”) e de William Golding (“O Deus das Moscas”) , Roma Mahieu mostra, através das brincadeiras, a brutalidade, o irracionalismo, a destruição da humanidade, o poder sem limites, a desumanização .

Haverá mesmo algo demoníaco dentro de nós – como mostra Roma Mahieu e como William Golding procura demonstrar com extremada contundência em “O Deus das Moscas”?

Apesar de todo o progresso para onde caminha o homem? Faz uma viagem sem volta? Retorna à brutalidade dos primatas? Regressa celeremente à barbárie?
Onde pode chegar uma massa governada por uma mente doentia?
E como se forma esta doença?
A peça mostra algo impensado: a tranquila convivência entre a inocência e o terror.
Mostra uma autora desencantada.
Será verdade? A humanidade realmente caminha para seu suicídio?


* Duas observações finais:
1) Na época em que a peça foi escrita a Argentina vivia o período que ficou conhecido como o da Guerra Suja, com trinta mil oposicionistas mortos pela ditadura (1973-1983). As mães destes desaparecidos ficaram conhecidas como “As Mães da Praça de Maio”, pois era nesta praça que se reuniam a exigir a libertação de seus filhos ou o aparecimento de seus corpos. Nunca foram atendidas. Além de matar os opositores do regime, os militares sequestraram seus filhos bebés para serem adoptados por famílias que apoiavam a ditadura. Segundo as estatísticas, foram cerca de 500 sequestros. Hoje, os sequestrados são os netos das Mães da Praça de Maio, que continuam a se reunir exigindo, agora, o reaparecimento de seus netos . Os antigos bebés têm entre 20 e 30 anos e não fazem ideia de que seus verdadeiros pais foram assassinados pelo regime de direita.

2) Depois de ter encenado com o TAP “A fantástica aventura do devasso que virou santo (Santo Agostinho)” é com alegria que retorno a Pombal para trabalhar com estes actores (aos quais já nem chamo de  amadores),que demonstram ambição criativa, disponibilidade, desejo de aprender, desejo de arriscar, desejo de intervir, desejo de ser um grupo vivo, activo, presente e até incomodativo na vida de Portugal.
  

 

sobre a autora

ROMA MAHIEU nasceu na Polónia. Aos dez anos vai viver para Santa Fé. De nacionalidade argentina por opção desde 1978 que reside em Madrid.
Realizou teatro infantil na Alemanha.
Pertenceu a grupos de teatro infantil na Argentina.
Estudou Teatro, Pintura, Dança, Cerâmica.
Duas das suas peças, "Jogos na hora da sesta" e "María la Muerte " são proibidas por decretos do poder executivo em 1978, durante a ditadura militar argentina.
Decide exilar-se em Espanha onde dirige o Festival Hispanoamericano de Teatro de Madrid, com o apoio do  Instituto de Cooperação Iberoamericana.
É jornalista e fotógrafa, para além de se dedicar ao ensino..
Escreve Novelas, Contos infantis, Guiões para cinema, televisão e teatro.
Tem mais de vinte peças teatrais, muitas estreadas e premiadas em diversos países.
Escreve rádio-teatro para a Deutche Rundfunk da Alemanha.
Participa em numerosos eventos teatrais um pouco por todo o mundo.
Obteve prémios en Espanha, Bulgária, Itália, Brasil e Argentina.
A obra "Juegos a la hora de la siesta" foi galardoada con os prémios Talia, Argentores e Molière na Argentina; também recebeu prémios no Brasil, Venezuela, Colômbia, Canadá, Itália, Espanha e Bulgária.
Recebeu o Prémio SGAE (Sociedad General de Autores de España) por "O dragão de fogo " em 1991.
Também por esta obra recebe o "Prémio Pepino 88" em 2000, atribuído na cidade de La Plata.

  

sobre a peça

“Texto da polaca Roma Mahieu, censurado e vencedor de diversos prémios internacionais,  que nos faz mergulhar num universo cheio de brincadeiras, aparentemente normais,  que vão revelando as relações, o comportamento e a personalidade de diferentes crianças  que  deixam transparecer o quanto são reflexos da formação, dos ideais e das crenças dos pais.
Jogos que passam do aparentemente normal à extrema violência. Discriminação, crueldade, espontaneidade... Um universo onde os mais fracos muitas vezes não sobrevivem. “


“De forma leve e irónica, ás vezes engraçada e mordaz, o texto leva a um caminho sem volta. Actual e legítima, a peça mostra como um ser humano cruel e autoritário nasce. Um texto forte, poético e de identificação imediata, ideal para um tempo de violência limite.”

 

 

ficha artistica e técnica 

 
Texto de Roma Mahieu
Encenação de Clóvis Levi
Assistência de encenação de Pamela Jean Croitorou
Cenografia de José Silva
Figurinos de Elsa Silva
Desenho e operação de luz de João Alegrete
Elenco Catarina Ribeiro, Filipe Eusébio, Gabriel Bonifácio, Humberto Pinto, Inês Falcão, Luis Catarro, Tiago Poiares e Vanessa Gonçalves
Fotografia de Gustavo Medeiros
Produção de Filipe Eusébio e Elsa Silva
Assistência de produção de Teresa Raimundo
 
Agradecimentos:
António Pedro Alvim, Prof. Cristina Faria, Prof. Cristina Leandro, 
“O Nariz” – Teatro de grupo (Pedro Oliveira), Teatro-Cine de Pombal (Paulo Ferro), Grupo Cénico do Sport Operário Marinhense


 Apoios gerais

Câmara Municipal de Pombal
Junta de Freguesia de Pombal

Apoios nesta produção

ArteNova
Direcção Regional da Cultura do Centro – MC
Preceram
Residencial Sr.ª de Belém
Restaurante O Manjar do Marquês


Fotos de ensaio

 de Gustavo Medeiros