“Leôncio e Lena” levantou vários desafios ao grupo. Tivemos a oportunidade de trabalhar com mais um encenador profissional de forma a conseguirmos obter formação, dinamismo e novas formas de fazer teatro. Pedro Malacas, um promissor actor, dramaturgo e encenador de Coimbra trouxe uma atitude singular para esta produção, conseguindo motivar o grupo a apostar no texto de Georg Büchner. O texto inicialmente parecia de difícil assimilação devido ao seu humor subtil e a uma especificidade que só mais tarde seria perceptível através da vivência das suas palavras em palco.
“Leôncio e Lena” traduz-se numa fantástica comédia que nos transporta para um mundo inexistente mas realista onde o tédio delirante se transforma na irreverência das suas personagens. Este “mundo” alucinado disseca o ser humano numa sociedade em que impera o vazio de ideias e busca o ínfimo dos ideais. È , assim, uma loucura desnuda de preconceitos.
Neste reino imaginário no qual as personagens se julgam no topo da evolução humana não é mais do que um reflexo de um universo presente em qualquer sociedade contemporânea.
Esta comédia em três actos apresenta-se como uma crítica social aos poderes instituídos no século de Büchner( século XIX) . No entanto, existe uma intemporalidade que nos permite projectá-la no tempo e no espaço.
sobre a encenação
“Leôncio e Lena” é uma peça em forma de flecha, mirabolante e bela, disparada por um magnífico arqueiro, Georg Büchner.
Num miraculoso esforço contra o tédio absoluto da sua viagem e, movendo-se constantemente em trajectórias tão hilariantes como ardilosas, esta peça-flecha atinge-nos precisamente no meio do alvo, onde mais dói, na nossa condição, a de humanos e mortais. Na sua única comédia, Büchner consegue um aproveitamento magistral das fontes literárias que usou, destacando autores como Shakespeare, Clemens Brentano e Alfred de Musset, e satirizando os seus contemporâneos românticos, em seu entender obsoletos, pelo modo como escondiam a ausência de novas ideias e significados, recorrendo ao uso obcecado das fórmulas românticas até à exaustão, plenas de vazio, artístico e intelectual. O culto romântico da exaltação no amor e a paixão exasperada pela morte são ridicularizados em diversos clichés e alusões. Apoiado em excertos da dramaturgia e literatura alemã da sua época constrói uma réplica jocosa, majestosamente decorada, uma troça fina e severa à fórmula romântica.
Como que perfurando as várias camadas de uma cebola gigante, esta flecha, vai em piruetas e rodopiando, expondo quase cruelmente a ligeireza artística, a cumplicidade com o despotismo aristocrático e o estado moribundo da arte naquela Alemanha de pequenos estados do século XIX, anos trinta.
Possuidor de agilidade absoluta, este jovem dramaturgo tirou uma outra flecha do estojo, e esta decerto faiscou ainda mais aos seus olhos. Agora tratava-se de disparar pelo povo, esse eterno sustentáculo das nações, pelo povo ao qual ele não pertencia por nascimento, mas pelo qual se entregou a riscos enormes. Tal como La Boétie nos tinha avisado dois séculos antes, era costume antigo dos povos o desejo voluntário de servidão. O povo de Georg estranhamente traía Georg com uma passividade incompreensível, um acomodamento que decerto o inquietava e entristecia.
Georg era um activista, incessante e a viver inconformado pela opressão dos sistemas monárquicos e despóticos dos pequenos estados alemães da sua época, toda essa problemática é transportada para a peça com a maior elegância, a mais mordaz ironia e com a extrema sensibilidade artística que possibilita a grande comédia. A desconstrução das fórmulas que proclama já mortas é então conseguida definitivamente pelo uso virtuoso e escancarado que o autor faz das mesmas, mas acrescentando intrinsecamente o seu espantoso idioma de movimentação cénica e revelando-se exímio na difícil arte do diálogo vivo.
Nesta produção, seguindo o exemplo do autor, proporemos em cada espectáculo o exercício de repensar a eterna questão sobre o quanto os limites impostos pelas convenções morais e sociais poderão ser nocivos à verdadeira liberdade e igualdade entre os homens e do sério risco de, quem sabe, ainda nos dias de hoje, por inércia nossa, estarmos a ser pequenos soldados de chumbo, com pequenas inutilidades a consumir o nosso pensamento, e completamente manietados por elites em desgoverno, sem que nem sequer disso nos apercebamos.
Apesar de tudo isto, destas conjecturas ou destes perigos, e apesar da sua real relevância ou não, apesar de ser obrigatório falar de Büchner quando falámos do teatro moderno, e apesar do amplo espaço criativo que este texto garante, não foi nenhum desses motivos que desde a minha primeira leitura me fizeram desejar realizar “ Leonce und Lena” e palco.
Foi o autor, a sua obra e o desejo puro de justiça e igualdade entre os homens. E a sua coragem, por disparar as flechas que votam para trás.
Quero agradecer publicamente ao Teatro Amador de Pombal a oportunidade e a confiança que me foi concedida para dirigir este enorme texto de teatro, assim como a verdadeira e honesta dedicação ao trabalho criativo e ao próprio TEATRO que deonstraram durante o processo.
Pedro Malacas
Ficha Técnica
Encenação de Pedro Malacas
Elenco com Catarina Ribeiro, Humberto Pinto, Inês Falcão, João Alegrete, Jorge Manaia, Luis Catarro, Tiago Poiares e Rita Leitão
Figurinos de Elsa Silva
Desenho de luz de João Alegrete
Operação de luz de Luis Portela
Fotografia de Gustavo Medeiros
Design gráfico de Luis Portela
Produção de Licinia Simão e Vânia Neves
Duração: 75 minutos
Teatro Amador de Pombal - 2005

